palavras dilatadas

Wednesday, December 20, 2006

são paulo pré-natal e ano novo

Continuo achando que a capital não é o lugar ideal pra se viver. Mas não posso negar o fascínio que a cidade exerce em mim, e em qualquer pessoa que não use cabresto. Os poucos dias que passei aqui foram suficientes para matar a saudade mórbida que sinto pelo caos, concreto e fumaça.

Andando hoje de manhã pela Liberdade / Sé / Centro em busca de presentes de natal para namorada e familiares (e não existe lugar melhor para custo-benefício em DVDs, livros e CDs), os olhos dos camelôs, na Galvão Bueno, estavam vidrados daquela típica forma que ficam nos momentos de tensão pré-RAPA. Mas ao contrário dos tradicionais gritos e apitos que antecedem a correria, um gigantesco mulato, de cavaquinho em mão, surgiu do nada com seus dentes enormes mostrando um sorriso de malandro. Começou a trinca básica RÉ-LÁ do pagode, murmurrou um "é issaí..." e começou:

ÓI O RAPA, ÓI O RAPA
QUE CHEGOU NO MEU QUINTAL
OS POLIÇA NA CARA-DURA
NÓIS SAINDO NA CARA DE PAU.

A voz ecoava por todo o pontilhão da Liberdade em meio a correria, lonas embrulhando DVDs (três por dez) e gente tomando sorvete no sol escaldante.

Saturday, November 25, 2006

Eu amo o Daniel Johnston



Ainda não sei o que vai ter na minha lista de dez filmes preferidos de 2006 que deve sair em breve no Palace Hotel, até porque não vi tanta novidade esse ano, estando longe do circuito de São Paulo, as opções de cinema foram poucas, e apesar de sempre contar com os lançamentos em DVD, acabei não me animando muito e ficando, pra variar, nas velharias que ainda não tinha visto (ontem aluguei O TESOURO DE SIERRA MADRE, porque estava cometendo pecado mortal em não ver este filme). Enfim, a minha única certeza é que o topo da lista pertence a THE DEVIL AND DANIEL JOHNSTON, um filme que posso dizer, com orgulho, que me emocionou como poucos.

Agora que o McQuade é um trio e, contraditoriamente, está buscando uma sonoridade mais experimental, gravei uma demo de um cover de Daniel Johnston, que deverá constar no nosso disco que deve sair ano que vem (espero). Já gravamos um outro cover de Johnston ("Speeding Motorcycle"), mas foi ao vivo e ficou uma merda enorme. Dessa vez vamos fazer com mais cuidado e carinho. Escolhi a canção "Monkey in a Zoo" porque é uma das melhores letras e melodias que já ouvi na vida. Canção de dor com grandes pitadas inacreditavelmente engraçadas. Afinal, se comparar a um macaco numa jaula, onde pessoas passam apontando o dedo e jogando amendoins é o supra-sumo da tragicomédia. Eu acho, ao menos. Daniel Johnston tem um senso de humor inacreditavel, que muitos ignoram. Daí, como o cover foi gravado sozinho, automaticamente virou Black Barn Music, meu projeto pessoal de música folk. Inseri um efeito de wire-recording na voz, deixando uma coisa meio Sparklehorse, e perto do final da música, um mellotron soltando sons de flauta e cordas cujas linhas remetem a "She's a Jar" do Wilco. Enfim, a meu ver, uma das belezas da música é essa: unir as influências. A outra beleza é o som de carros passando ao fundo.

BLACK BARN MUSIC - MONKEY IN A ZOO (DANIEL JOHNSTON COVER)
http://www.myspace.com/blackbarnmusic

um recado aos vegetarianos.

Era costume, nas escolas públicas de primeiro grau na minha cidade, fazerem excursões até o frigorífico, que era quem alimentava o maior número de empregos para a população. Lá, aprendíamos como o boi era morto (através de eletrochoque, que substituíra a marreta - exigência dos judeus que eram os maiores consumidores da carne), cortado, desbuchado, destrinchado e embalado. Andávamos todos de capacete branco como os funcionários. Achávamos o máximo. Talvez a primeira cena de real horror que vi na vida foi um boi pendurado num gancho, sem pele, e com os nervos do corpo tremendo em pequenos colapsos. "É que o bicho meio que não morre totalmente", explicou o supervisor que nos guiava no passeio.

No sítio do meu primo, vi um porco ser morto. É enfiada uma enorme faca no pescoço dele, e a quantidade de sangue que sai é inacreditável. Ele dá guinchos horripilantes, altíssimos, agudos. Mija um litro de mijo. Estrebucha até ficar inerte, sem vida. Depois, vi abaterem uma vaca. Como lá não era o frigorífico, a marreta dominava. Pou, pou, na cabeça, a vaca desmontava no chão e tremia espasmos contínuos. A faca entrava em ação e, aos poucos, o interior do animal ia deixando o corpo. Lembro muito bem de uma cena específica: a faca cortando o bucho e quilos de merda fresca e verde saindo de dentro.

Nesse mesmo sítio, já ajudei meu tio, meu primo e o peão que morava lá a tocar a boiada. Tinha apenas 12 ou 13 anos, mas tomei coragem, calcei uma bota, botei um chapéu (o sol não era brincadeira), montei no cavalo e fui junto. É muito difícil tocar boiada. Tem que ficar gritando o tempo todo, sempre organizando as dezenas de animais enormes (principalmente quando se é um pré-adolescente). Uma hora, um boi escapou por minha esquerda, e meu tio gritou "corre lá, corre lá!". Mandei a bota no cavalo e corri mais que o boi, cerquei-o, e ele voltou obediente para a caravana.

Fiz e vi tudo isso.

Portanto, você, que viveu a vida toda dentro de um apartamento, engaiolado da vida real no interior, que só viu carne vermelha embalada no super-mercado, faça-me um favor: não me venha pedir para deixar de comer carne.

Wednesday, November 22, 2006

A maioria das pessoas têm uma necessidade muito grande de pertencer a algum lugar. Já morei em mais de dez casas diferentes, em três cidades diferentes. Mudanças dão um tremendo desgaste. Fora os objetos que se perdem no processo, há ainda o restart, começar tudo de novo. A cada vez que me mudava, era a mesma maldita rotina: procurar uma venda ou mercado que desse caixas de papelão, guardar tudo, lacrar com fita adesiva, escrever a caneta se naquela caixa tinham CDs ou roupas. A partir do momento em que me dei conta de que essa rotina iria me perseguir até o fim da vida, comecei a nutrir, inconscientemente, um certo desprezo por meus pertences e meu presente momento. Se estou nesse lugar provisoriamente, para que desenvolver um carinho e um apego à ele e às pessoas que o habitam?, pensava.

A não ser que você sinta um prazer orgástico em explorar os outros, ou então uma pessoa extremamente comunicativa e de fácil relacionamento, as chances de ter uma vida bem-sucedida são mínimas. Durante minha vida, fiz escolhas certas em determinados momentos, mas que não se mantiveram em alguns outros. Minha criação católica me fez crer em um Deus intervencionista, mas na adolescência fui pêgo de surpresa pelo benefício da dúvida. Desde então não foi tão fácil acreditar em um caminho pré-definido, além daquele que nós próprios traçamos. Sinto cada vez mais que tudo a meu redor está nas mãos do acaso, então só resta seguir em frente, esperando o mínimo de danos possíveis.

Wednesday, November 15, 2006

Sobre a terceira idade



Lá na minha cidade natal tem um clube da terceira idade muito bacana. Meus pais o frequentavam até pouco tempo, quando muita gente começou a ir e não ficou mais legal (eles são sociopatas como eu). Mas tive a chance de conferir de perto um desses bailes, e confesso que fiquei com inveja da banda que tocava: dois senhores de idade no violão e baixo, e dois jovens na bateria e teclado. Só forró, arrasta-pé e clássicos da velha guarda, Nelson Gonçalves, etc. Os tiozões que cantavam. Os jovens apenas acompanhavam. Pensei que fossem filhos ou até netos, mas como, durante os intervalos, os senhores e os jovens não tinham um relacionamento típico de parentes próximos, concluí que deviam ser "músicos contratados".

Mas o que mais me chamou a atenção foi a devoção e respeito do público àquela bandinha furréca, de roupas mofadas, instrumentos baratos e amplificadores rachados. A cada música terminada, uma saraivada de palmas e urros seguiam. Não fiquei até o final, mas imagino que os pedidos de bis devem ter sido até irritantes. Nos intervalos (porque banda de baile toca no mínimo três horas), alguns casais de velhinhos iam até a banda para conversar, pagarem cerveja, cachaça e batata frita (chips, no pratinho de papelão). Empolgados (e suados), a banda logo depois voltava ao palco, sorridente, e continuava o pagode.

Daí eu me lembrei do público da Funhouse, Outs, ou qualquer antro indie, onde - caso você não seja conhecido e bem falado no meio - o máximo que consegue de resposta do público são os gritos do mais bêbado, de língua enrolada, berrando "tooooca ramonessss porrrrra". Se eu pudesse escolher uma banda "lo-fi" hoje em dia, certamente seria uma banda de baile da terceira idade. Viajar de maverick podrão pela Washington Luiz, entrar em estradas de terra até cair em cidadezinhas hospitaleiras, para fazer música para gente paciente, bondosa e legal de conversar. Se eu pudesse trocar todos os adolescentes do mundo por velhos, não pensaria duas vezes. Fico triste em saber que a geração dos meus pais está morrendo. E tenho medo do que o futuro reserva na mão dos adolescentes de hoje.

Tuesday, November 14, 2006

Nada de blog-diarinho. Passei da idade disso. Ou melhor, nunca tive essa idade.

Mais um espaço para compartilhar idéias e experiências. Com um público menos amplo que o do Palace Hotel. Não é nada saudável compartilhar idéias e experiências com uma média de 60 pessoas por dia. Principalmente quando não se conhece nem 5% delas.

Não levem a mal, mas minha vida é um livro fechado. Vou confundir a mim mesmo aqui. A primeira e a terceira pessoa podem ser uma só, ou ninguém. Ou alguém que vi na rua. Ou num filme.

E antes que algum engraçadinho faça piada do título do blog, ele não tem nada a ver com drogas. Tem a ver com ficar no escuro.